Imunologia da Reprodução

O processo de aceitação de uma gestação envolve mecanismos imunológicos. A imunologia reprodutiva é um segmento da medicina que investiga os aspectos envolvidos no reconhecimento útero – embrião no processo da gestação. Há três grandes grupos de pacientes que merecem investigação imunológica: grupo de abortamento recorrente (dois ou mais abortamentos), infertilidade sem causa conhecida e falhas recorrentes de implantação (duas ou mais falhas de tratamento de fertilização in vitro).

Nestes casos, o casal deve ser investigado através de exames genéticos, pesquisa de autoimunidade e pesquisa de trombofilias. Do ponto de vista imunológico, deve ser realizado o rastreamento das causas específicas que possam estar impedindo a gravidez, por exemplo, investigação de alterações auto-imunes da mulher (doença da tireóide, artrite reumatóide, lupus eritematoso, esclerose múltipla, entre outras), pesquisa de tendências genéticas ou adquiridas de tromboses/trombofilias.

 

Abortamento recorrente é definido como duas ou mais perdas gestacionais antes de 20 semanas ou feto com peso inferior a 500 gramas. Aproximadamente 15% de todas as gestações diagnosticadas terão evolução para aborto espontâneo entre 4 e 20 semanas. Entre as principais causas descritas para o abortamento recorrente temos as etiologias genéticas, endócrinas, anatômicas, infecciosas, hematológicas (trombofilias) e imunológicas.

 

As trombofilias podem ser divididas em dois grupos: as adquiridas e as hereditárias. No grupo das trombofilias adquiridas destaca-se a síndrome antifosfolípide (SAF) e dentre as trombofilias hereditárias, as mais freqüentes na população são:

  • Mutação do Fator V de Leiden
  • Mutação do Fator II (Protrombina)
  • Mutação da Metilenotetrahidrofolato Redutase (MTHFR)
  • Deficiência de Proteína C e S e Anti-Trombina III

As pacientes apresentam freqüentemente histórico de abortamentos espontâneos e/ou complicações obstétricas anteriores:

  • Insuficiência placentária / restrição de crescimento intra-uterino
  • Óbito fetal
  • Pré-eclâmpsia
  • Prematuridade
  • Descolamento prematuro de placenta

 

A medicina vem analisando propostas de tratamentos para o aborto de causa imunológica. Alguns trabalhos científicos apontam o uso de imunoglobulina endovenosa em casos de falhas de implantação, mas esta indicação ainda precisa ser padronizada. Há também estudos de uso de imunização com linfócitos paternos para casos de abortamentos recorrentes, mas esta terapia foi recentemente questionada por agencias de saúde, como o FDA e ANVISA, estando suspensa do roll de terapias utilizadas.

Para os casos de trombofilia, a terapia anticoagulante (heparina de baixo peso molecular) e suplementação do ácido fólico são medidas que podem melhorar as chances de uma gravidez saudável. A avaliação hematológica através da anamnese dirigida, história familiar e análise laboratorial é de extrema importância na abordagem de pacientes com histórico de abortamento recorrente. As trombofilias hereditárias não são tão raras uma vez que estas passem a fazer parte do rol de investigação neste grupo de pacientes.

 

Dra.Priscila Geller Wolff